Nos últimos anos, o debate sobre segurança pública no Brasil tem se intensificado, especialmente diante do aumento da letalidade policial. Em um contexto pré-eleitoral, o tema ganha contornos ainda mais complexos, já que políticas e discursos voltados à segurança se tornam armas políticas poderosas. Com estados apresentando dados divergentes e estratégias distintas, o país se vê diante de um dilema: como equilibrar o combate ao crime e o respeito aos direitos humanos em meio à pressão eleitoral?

Letalidade policial cresce em meio à disputa política

O crescimento da letalidade policial em alguns estados brasileiros reflete não apenas o agravamento da violência, mas também a forma como governos locais lidam com a segurança pública em contextos de disputa política. Dados recentes indicam que unidades federativas como Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo concentram números expressivos de mortes decorrentes de ações policiais. Essa tendência, longe de ser homogênea, evidencia diferentes políticas de enfrentamento e a falta de uma diretriz nacional clara voltada à redução do uso letal da força.

Em períodos que antecedem as eleições, observa-se uma intensificação do discurso de “tolerância zero” contra o crime, o que tende a legitimar abordagens mais violentas das forças de segurança. A retórica política muitas vezes se apoia na ideia de que a “mão dura” é sinal de eficiência, o que resulta em maior pressão sobre policiais e um aumento nas operações de confronto direto em comunidades. Esse ciclo retroalimenta tanto a sensação de insegurança quanto a desconfiança em relação às instituições.

O efeito prático é um recrudescimento das tensões sociais e uma profunda divisão de opiniões na sociedade civil. De um lado, há quem defenda a ação enérgica como resposta necessária à criminalidade. De outro, organizações de direitos humanos e especialistas em segurança pública alertam para o impacto da violência policial sobre jovens negros e periféricos, que continuam sendo as principais vítimas. Assim, o debate eleitoral acaba se misturando com a crise de legitimidade das forças de segurança, num campo de disputa simbólica e política.

Políticas de segurança em xeque no ano pré-eleitoral

O ano pré-eleitoral costuma ser um laboratório de estratégias políticas, e a segurança pública ocupa papel central nesse tabuleiro. A tensão entre políticas de confronto e de prevenção define não apenas a atuação das forças policiais, mas também a imagem dos candidatos perante o eleitorado. Enquanto alguns governos estaduais buscam mostrar resultados imediatos por meio de operações ostensivas, outros tentam investir em programas de policiamento comunitário, inteligência e capacitação.

Contudo, a persistência da letalidade policial sugere que modelos preventivos seguem encontrando resistência dentro das próprias corporações e entre setores da opinião pública. Medidas como o uso de câmeras corporais, a transparência de dados sobre operações e o fortalecimento da perícia independente ainda enfrentam obstáculos políticos. Em muitos casos, as disputas partidárias dificultam a continuidade de boas práticas e a implementação de reformas estruturais na segurança pública.

A discussão sobre segurança em ano pré-eleitoral, portanto, revela mais do que um embate entre ideologias: denuncia a falta de planejamento de longo prazo e o uso do tema como instrumento de marketing político. É nesse contexto que se torna urgente repensar as políticas públicas, privilegiando a prevenção, o diálogo entre esferas de governo e a valorização da vida. Reduzir a letalidade policial não deve ser apenas uma meta estatística, mas um compromisso ético e republicano capaz de transcender períodos eleitorais.

A combinação entre letalidade policial crescente e embates políticos em ano pré-eleitoral expõe a fragilidade das políticas de segurança no Brasil. A busca por resultados imediatos, impulsionada pela lógica eleitoral, frequentemente ignora a complexidade social e humana envolvida na questão. Superar esse impasse exige coragem política, compromisso com a transparência e investimento em modelos de policiamento que priorizem a vida e a confiança pública. Somente assim será possível construir uma segurança verdadeiramente democrática, que vá além das promessas de campanha e se traduza em cidadania efetiva para todos.